De acordo com Kehrle, o suspeito depôs
durante quatro horas logo após receber alta do Hospital da Restauração
(HR), onde estava internado desde o dia do crime, no último dia 26, por
intoxicação. “Ele ainda não articulava bem as palavras, mas foi muito
seguro no que dizia. Disse que o pai era muito áustero, que se sentiu
muito abandonado, desprezado por ele durante os anos que viveu nos
Estados Unidos, contradizendo as testemunhas”, explicou.
O delegado contou que o investigado veio
ao Brasil por causa de uma audiência marcada para maio que iria decidir
a deportação dele dos Estados Unidos, onde ele responde a 15 processos
no estado de Miami, nenhum por homicídio. O suspeito vivia com uma
norte-americana e tem três filhos com ela. “Ele voltou para a casa dos
pais por causa do perigo de deportação e decidiu ficar e pedir ajuda
financeira ao bispo para trazer a família dos Estados Unidos. Com a
negativa do bispo, o sentimento de desprezo e de abandono por ele e pela
família dele ficou exacerbado. Foi quando ele decidiu maquinar a morte
do pai”, falou.
Segundo Kehrle, ainda nos Estados
Unidos, o suspeito soube que o pai estava albergando duas moças em casa,
que fica no bairro dos Bultrins, em Olinda. “Ele perguntou a um amigo
do bispo se as mulheres teriam direito à herança dos pais. Então, mesmo
que não tenha sido taxativo, ele também se preocupava com o dinheiro.
Ele quis voltar também para ocupar o lugar dessas moças e ter direito à
herança”, falou. Ao chegar no aeroporto do Recife, o homem chegou a
pesquisar como poderia conseguir uma arma, segundo ele, para segurança
própria.
O delegado disse que, no dia do crime, o
suspeito foi a igreja com os pais. “Durante o culto, ele ficou muito
ansioso, eufórico e tomou um remédio psicotrópico chamado Zenax,
prescrito por um médico nos EUA. Quando chegou em casa, ele trancou a
porta e ficou com a chave. Depois, atacou o pai com uma faca peixeira. A
mãe tentou intervir e também levou uma facada. Depois, ele se voltou
para o pai novamente, ele contou que tinham pessoas olhando tudo pela
janela da residência”, explicou.
Ao todo, o bispo foi atingido com três
golpes e Mirian com um. “Nós acreditamos que a mãe não era o alvo, ele
tinha até um certo afeto por ela. Ela só morreu porque tentou intervir
no assassinato do pai. Pois, segundo o investigado, a Mirian também não
era muito bem tratada pelo pastor, que se preocupava muito com a
carreira religiosa. No fim do depoimento, ele disse que não havia
arrependimento, que as mortes foram resultado de todos esses anos de
abandono. Ele disse que amava muito os três filhos dele, que ele queria
esse amor dispensado pelo pai”, contou.
O pó branco achado na casa era o remédio
Zenax raspado, o suspeito ingeriu ao todo 60 cápsulas, antes e depois
do crime. O resultado do exame toxicológico ainda não ficou pronto. A
polícia não pedirá exame psicológico. Depois dos homicídios, o homem
também desferiu cerca de 20 facadas contra o próprio corpo, mas os
ferimentos foram superficiais. A faca usada foi uma simples, de mesa.
Sobre o envolvimento com gangues, o
delegado disse que o suspeito conhecia a Salva Maratrucha, porém, ele
integrava uma formada por imigrantes ilegais de Cuba e da Itália,
envolvida com tráfico de drogas, roubos e homicídio. “Ele entrou para
esse grupo, liderado por Jon Gary Jr, segundo o investigado, logo quando
chegou aos Estados Unidos. O ‘batismo’ foi vender um quilo de heroína.
Só que ele acabou viciado na droga também”, contou Kehrle.
O homem mudou-se para os EUA aos 16 anos
por ordem da família. Segundo o delegado, ele chegou a trabalhar cinco
anos lá como operador de empilhadeira. “Um fato que o deixava com raiva
era que, quando morava com a tia, o bispo mandava dinheiro para ela e
não para ele”, falou. O suspeito também comentou à polícia que um dia
foi a um motel com uma mulher, os dois consumiram heroína e, na manhã
seguinte, ela estava morta. “Não sabemos se o caso foi investigado pela
polícia de lá. As informações que solicitamos ao Consulado Americano
sobre os antecedentes criminais dele ainda não chegaram”, complementou.
A polícia já ouviu nove testemunhas e
pode ainda colher mais depoimento de acordo com a necessidade. O
investigado será autuado por homicídio duplamente qualificado – motivo
fútil e cruel , já que as vítimas não tiveram condições de se defender.
Pelos crimes, ele pode pegar de 12 a 30 anos de prisão.
Fonte: G1
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