terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Dr. Google


Isaac Ribeiro
Repórter

Estou com uma mancha na pele... será que é câncer? Estou com uma dor de cabeça muito forte... pode ser um tumor no cérebro? Posso tomar vitamina C contra gripe aviária? Para muita gente, hoje em dia, basta um clique no Google e todas essas dúvidas estarão esclarecidas. Agora, se a resposta está correta, isso ninguém pode garantir. Com o espaço que a internet tem tomado na vida das pessoas, há quem não ache mais necessário ir ao médico para esclarecer o motivo dos mais diversos sintomas.
Tribuna do NorteÉ cada vez maior o número de pessoas que recorrem ao famoso site de buscas na internet para pesquisar sobre sintomas de doenças, resultados de exames e saúde em geralÉ cada vez maior o número de pessoas que recorrem ao famoso site de buscas na internet para pesquisar sobre sintomas de doenças, resultados de exames e saúde em geral

O fato é que nunca a informação sobre saúde esteve tão  ao alcance do cidadão comum. Democratização? Numa busca apurada em sites como o Google, é possível encontrar de tudo; inclusive páginas com respostas para problemas de saúde, causas, sintomas, tratamento. Deve-se observar, porém, a procedência e a confiabilidade desses espaços (veja box na página 3). 

Algumas pesquisas apontam o comportamento da população diante esse tipo de informação, no Brasil e no mundo. De acordo com estudo realizado, ano passado, pela Bupa,  seguradora internacional de saúde, em parceria com o Instituto Ipsos e a London School of Economics, 86% dos brasileiros usam a internet para se informar sobre assuntos de saúde, medicamentos, hospitais e exames. O Brasil é o quinto país que mais pesquisa sobre saúde na internet, ficando atrás de Rússia, China, Índia e México.

Outra pesquisa realizada em 2010 pelo Centro de Estudos sobre Tecnologias da Informação indica que 35% dos internautas brasileiros procuram sites dedicados a assuntos de saúde.

Tem gente que quando recebe um exame, abre logo o envelope e vai pesquisar as "palavras difíceis" e termos desconhecidos no Google - ou melhor, no Dr. Google. Esse tipo de comportamento divide as opiniões dos médicos. Há quem não se importe, argumentando ser um direito do paciente; outros não aprovam, temendo ansiedade entre outras pertubações psicológicas.

O Conselho Federal de Medicina alerta que a tensão gerada por informações descontextualizadas pode traumatizar uma pessoa, causar distúrbio de comportamento. 

A busca frenética por assuntos de saúde, remédios, doenças, sintomas, tem criado uma nova figura: o cybercondríaco. Ou seja, o hipocondríaco cibernético, aquele que a qualquer pequeno sinal de mal estar, corre pro Google em busca de uma resposta, uma solução. O risco maior dessa cybercondria são o autodiagnóstico e a automedicação. 

Pesquisa virtual divide opiniões

O infectologista Alexandre Motta Câmara diz ter vários colegas de profissão que não aprovam seus pacientes abrirem exames e irem pesquisar na internet, antes mesmo da análise  profissional. Ele, porém, não vê problema algum nisso, já que, mesmo que o exame seja aberto antes de chegar ao consultório, o médico diz explicar tudo corretamente depois, afastando equivocadas compreensões anteriores. 

O grande problema, na opinião do infectologista, é a ansiedade gerada no paciente com relação ao resultado de um exame. "É a mesma coisa de quando um leigo leva algo para consertar e recebe um parecer técnico ou jurídico, no caso da justiça. Na hora ele não vai entender."

Para Alexandre Motta, o paciente tem o direito de abrir seu exame e pesquisar sobre o resultado, com ressalvas apenas ao fato de, em não entendo o que está escrito, criar um clima desnecessário de expectativa. 

Mas tudo depende da relação que o médico tem com seus pacientes. Alguns não esclarecem completamente o que o resultado de determinado exame indica. "Eu explico todas as nuances relativas à patologia, mesmo se o paciente ficar ansioso. Mas se tudo for resolvido, não há problema algum", comenta o infectologista. 

Apesar de não ver problema em o paciente abrir e ler o exame antes do médico, Alexandre Motta recomenda deixar a análise para o especialista, pois há temas técnicos que só farão sentido se explicado pelo profissional da área. "Se quiser olhar, olhe! Mas não se assuste com o que está escrito."

Para a ginecologista Lenaide Rodrigues, o paciente pode abrir e ler o seu exame antes mesmo de o médico fazê-lo.  "Afinal, ele tem o direito de saber o que tem, mesmo se for algo grave. Não podemos esconder nada dele."

Ela conta haver casos de o paciente ler o resultado antes e chegar desesperado ao consultório, achando possuir um mal extremamente grave. "Só que, quando vou ver, não é nada sério. Aí, vou explicar tudo. Por isso, é bom esperar para que o médico veja. Mas não acho errado abrir, não; afinal, o exame é dele."

Mas nem todos aprovam essa conduta dos pacientes. Para a farmacêutica bioquímica Andréia Fernandes, responsável técnica de um laboratório de análises clínicas, isso só gera prejuízos, além de transtornos dispensáveis, motivados por interpretações equivocadas a partir de pesquisas na web.

"Nossa orientação é que o exame só deve ser aberto e interpretado por um médico, pois os testes laboratoriais junto com a clínica é que fecham o diagnóstico", diz Andréia, que também tem sérias restrições à pesquisa na internet. "Alguns sites não oferecem confiança e podem conter informações falsas, incorretas, e mascarar um quadro de saúde."

Para exemplificar, ela  relata experiências com pacientes portadores de HIV que não conseguiam entender questões relacionadas a aumento de carga viral e ficavam confusos, perturbados - o que só reforça sua posição e orientação de não ler exames antes do médico. "É algo que se deve ter muito cuidado, pois a pessoa pode se deprimir e piorar o seu estado de saúde." 

É certo que hoje em dia muita gente pesquisa sobre sintomas de doenças e resultados de exames médicos no Google, embora nem todos assumam esse comportamento, por saber não ser algo totalmente correto. 

Apesar de não considerar um costume frequente, a designer de moda Michele Dalpasqual diz usar o Google para pesquisar sobre saúde. Nem sempre os resultados encontrados a deixaram satisfeita; como no dia em que procurava os motivos da formação de pequenas protuberâncias na garganta. "Foi meio chato porque só tinha tragédia. Pesquisar é sempre muito traumático para mim, pois sempre mostra coisas mais sérias do que realmente é o problema. Mas me incentivou a procurar um médico", conta Michele. "A maioria das pessoas que conheço faz isso."

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